6 de dezembro de 2023

Rota de Fuga: primeira ficção sobre o afundamento de Maceió é uma jornada cinematográfica pelos conflitos emocionais na tragédia

Por Alice Renise

Foto: Natie Paz

No último domingo (03/12), as câmeras se desligaram, marcando o encerramento das filmagens do aguardado “Rota de Fuga“, o primeiro filme de ficção sobre o afundamento do solo em Maceió. Sob a direção de Henrique Oliveira e Ricardo Oliveira, o curta-metragem narra a história de Salvador/Sal, interpretado por Ricardo, que personifica a dor das vítimas dessa tragédia. O filme mergulha profundamente nos conflitos emocionais surgidos do maior desastre socioambiental urbano do mundo.

Produzido pela alagoana Panan Filmes, o elenco conta com talentos como Erom Cordeiro, Chico de Assis, Lucélia Pontes, Wanderlândia Melo e Cleyton Alves. Mesmo em meio às gravações da novela “Elas por Elas” (TV Globo), no Rio de Janeiro, Erom encontrou tempo e fez questão de participar desse projeto significativo.

Mais de 40 profissionais do audiovisual alagoano, muitos dos quais também foram afetados pelo problema, fazem parte da produção. Os cenários são fiéis à realidade, com locações 100% ambientadas nos bairros atingidos.

Foto: Natie Paz

Entenda o caso

Saindo da ficção e adentrando à realidade, o pano de fundo deste drama é compartilhado por pelo menos 60 mil pessoas em Maceió. Elas foram obrigadas a abandonar suas residências devido a mais de 40 anos de extração predatória de sal-gema pela mineradora Braskem, desencadeando um processo de afundamento do solo.

Estudos já alertavam sobre os perigos dessa mineração desde os anos 80, mas somente em 2018, quando ocorreu um tremor de terra no bairro do Pinheiro, o grande público tomou conhecimento da ameaça iminente. Desde então, cinco bairros foram categorizados como áreas de risco, com o surgimento de rachaduras e pequenas crateras em residências e vias públicas.

Foto: Edvan Ferreira

Da ideia à execução

A concepção do drama teve início em 2019, quando o co-diretor Ricardo Oliveira, inspirado pelos desdobramentos dos tremores ocorridos em 2018, concebeu a ideia de um filme que não apenas documentasse, mas também explorasse os impactos emocionais da tragédia.

“O ponto de partida para essa fuga aconteceu quando encontrei o ator Chico de Assis em uma sorveteria para nos conhecermos melhor. Ele me incentivou a escrever uma história sobre a relação entre pai e filho. Não por acaso, e também devido ao seu talento fenomenal, Chico interpreta Durval, meu pai em ‘Rota de Fuga’”, compartilha o jornalista e ator Ricardo Oliveira, roteirista e diretor do filme.

Ao abordar o conceito de lar, a inspiração surgiu da própria casa e do que ocorria ao seu redor. “Enquanto observava meu pai lidar com o luto pela morte do meu avô em casa, testemunhava, indignado pela TV, e ouvia dos amigos residentes nos bairros afetados a angústia pela falta de indenização. Foi nesse momento que compreendi que a dor da perda era universal e, mais do que um enredo sobre pai e filho, como artista do meu tempo, não poderia deixar de retratar essa tragédia irreversível que minha cidade enfrentava”.

Foto: Edvan Ferreira

A sensibilidade na narrativa

Além das perdas materiais, “Rota de Fuga” mergulha nas profundezas dos traumas psicológicos das vítimas. Henrique Oliveira, co-diretor do filme, também foi morador do Pinheiro e explica esse processo.

“Durante os três anos da pré-produção do projeto, testemunhamos os lugares, a história e a memória dos bairros ser constantemente apagada através das demolições, interdições com tapumes, fechamento de estabelecimentos comerciais e evacuação dos moradores. Isso naturalmente gerou inúmeras dificuldades para a produção, mas ao mesmo tempo intensificou a nossa responsabilidade com cada uma dessas pessoas afetadas. Era nosso compromisso realizar um projeto que não apenas retratasse, mas também divulgasse ao mundo a história delas, garantindo que não só fossem conhecidas, mas jamais fossem esquecidas“, declara.

Foto: Edvan Ferreira

Fuga para a realidade

Durante o encerramento das filmagens no último domingo, o fantasma do desastre ambiental ganhou novas proporções. “Lamento informar que, na madrugada em que o filme foi finalizado, os tremores se intensificaram, resultando em um agravamento com risco iminente de afundamento do solo nos bairros afetados pela Braskem. Parece que a realidade bateu à nossa porta e nos alertou sobre a urgência que nossa obra tem em denunciar o maior desastre socioambiental em curso no mundo“, alerta Ricardo.

A situação se agravou especificamente na mina 18, no bairro do Mutange, que chegou a afundar até cerca de 5cm por hora, acionando o alerta dos especialistas. Até a noite de segunda-feira (04/12), essa velocidade diminuiu para 0,2 cm por hora, e mesmo com a tendência de estabilização, a atenção das autoridades persiste.

“Desde o início da fase final de pré-produção do projeto, continuo tendo pesadelos diários com as cenas, os lugares, os problemas de produção… Foi tudo muito, muito intenso! E se para mim, que deixei a região anos antes dos tremores, está sendo assim, imagino o quão complexo, devastador e revoltante deve estar sendo para quem ainda vive na região afetada, mas considerada fora do mapa, ou que resistiu e teve que ser retirado à força pelo abalo da mina 18″, relata Henrique.

Rota de Fuga” não é apenas um filme; é um chamado à resistência. Em meio aos desafios da produção, a equipe encontrou uma força interior que transcendeu os contratempos e permitiu que a história fosse contada de maneira única. Agora, o caminho é levar essa obra aos festivais nacionais e internacionais, dando voz à população afetada e compartilhando a realidade de Maceió com o mundo.

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