“Eu não faço desfile para mostrar o que as pessoas já conhecem”, diz Antonio Castro, da FOZ
Um dia depois de apresentar Expresso Maravilha na SPFW N61, o estilista alagoano fala sobre modelagem, artesanato e conta por que trocou o buquê da noiva pela Constituição

Foto: Isadora Totaro
O desfile da FOZ terminou, mas a conversa continua. No domingo (18), Antonio Castro apresentou Expresso Maravilha, a quarta coleção da marca alagoana na SPFW, para uma sala de cerca de mil pessoas no Parque Ibirapuera. Na segunda-feira (19), o estilista conversou com o Refresh sobre o que fica depois da passarela.
Na entrevista, Antonio fala do investimento técnico que não aparece a olho nu, do artesanato brasileiro como um poço sem fundo, da maturidade da FOZ e da ideia que transformou o buquê da noiva em um livro.
O que você espera que o público compreenda sobre a FOZ ao ver essa coleção na passarela?
A cada desfile, a gente tenta avançar o nosso expertise de construção de vestuário. No último, Povoado Poesia, esse exercício já foi bastante visível. A FOZ é muito conhecida por shapes mais fluidos, e eu tenho exercitado uma construção mais elaborada, que não deixa de lado a fluidez, mas que agora flerta com uma polidez de forma e de modelagem que eu ainda não tinha explorado. Em termos de coleção, era isso que eu gostaria que fosse percebido.
Acho que o nosso posicionamento público engoliu um pouco a coleção, o que é normal. Eu imaginei que isso poderia acontecer. Mas a roupa segue ali, muito forte, sustentando a mensagem que a gente colocou na passarela.
Que detalhes da coleção quem estava na plateia talvez não tenha percebido?
O estudo de modelagem talvez seja um dos mais essenciais, porque muito dessa construção técnica não é percebida na passarela. A passarela é o que você vê a olho nu. Outra coisa é o avesso da roupa. Existe bastante investimento técnico nessas peças para que elas tenham a aparência visual que têm, e muita gente não sabe disso.
O que você quer mostrar sobre o artesanato brasileiro?
Nessa coleção, assim como em todas, quero mostrar que não existe limite. É um poço sem fundo. Artesanato brasileiro é isso: vocês ainda não sabem o que é. A gente ainda está descobrindo. Eu ainda não sei o que é.
A cada desfile, o meu desafio é mostrar o quão mais longe a criatividade técnica pode chegar. Acho que é a minha missão. Eu não faço desfile para mostrar para as pessoas o que elas já conhecem. Se é para mostrar o bordado redendê do jeito que todo mundo já viu, não me interessa. Se é para mostrar a renda irlandesa do jeito que todo mundo já viu, não me interessa.
Ninguém sai de casa num domingo à tarde, com duas manifestações acontecendo ao mesmo tempo em São Paulo, trânsito caótico, estacionamento difícil e caro, risco de chuva e um calor infernal, para sentar numa sala com mil pessoas no Ibirapuera à toa. O mínimo que a gente tem que fazer por essas pessoas é mostrar algo que elas nunca viram.
O que mudou na FOZ desde o primeiro desfile na SPFW?
A nossa maturidade. A FOZ ainda é uma marca muito emergente e, por isso, está em processo de crescimento. Não falo só de expansão comercial, mas de crescimento profissional: conhecimento técnico e teórico, formação de repertório, construção de códigos visuais que as pessoas reconhecem como um produto da FOZ.
No primeiro desfile, eu não sabia direito o que estava fazendo. No segundo, sentia que tinha muito a provar. Precisava mostrar que aquilo não era sorte de principiante, que eu tinha mais a dizer do que a minha primeira coleção e que conseguiria mostrar consistência. No terceiro, a mesma coisa. E a cada desfile a gente quer entregar pelo menos 20% a mais do que no anterior, porque quer mostrar crescimento.
Agora, talvez a gente esteja encontrando um lugar de mais estabilidade, porque o nosso trabalho vem sendo reconhecido e as pessoas já sabem quem a gente é. Estar no line-up da São Paulo Fashion Week não coloca todo mundo em pé de igualdade. Ali existem marcas muito consagradas e marcas muito emergentes. A gente está nessa transição de uma marca que começou alternativa no line-up para uma marca mais reconhecida. Não vou dizer consagrada, porque para isso você precisa de pelo menos uma década de carreira, e a gente está na metade. Falta um tempinho, mas o caminho é esse.
O que essa coleção representa no momento atual da FOZ?
Eu entendi que o momento atual da FOZ é o momento atual do mundo, do Brasil, o nosso momento atual. Acho muito triste quando as marcas tentam se isentar da realidade que a gente está vivendo, seja ela qual for. A moda tem essa mania de criar contos de fadas.
O meu trabalho sempre flertou com esse limiar entre realidade e fantasia. Eu gosto muito do lúdico, ele me dá liberdade poética para construir narrativas. Mas ele não pode ser usado como uma capa da invisibilidade, um disfarce do que a realidade nos confronta. Se me é dado um palco e um microfone, eu preciso usar a minha voz e a minha imagem para representar aquilo que eu acredito e defendo naquele momento.
Eu não queria que o meu desfile se tornasse um protesto ou um manifesto, porque, no fim do dia, eu preciso apresentar produto e vender. Mas sempre gostei muito de metáfora para falar das coisas que considero importantes. E a forma como a gente colocou um livro na passarela diz muito sobre o que eu acredito.
Como surgiu a ideia do livro no lugar do buquê?
A coleção se chama Expresso Maravilha. Quando você está viajando num ônibus, num trem, o que quer que seja, além de ouvir música, você lê. Eu quis presentear os convidados da primeira fila com livros. Comprei 160 livros em sebos aqui em São Paulo, coloquei rosas dentro deles e deixei para que as pessoas levassem para casa. E pensei que o buquê da noiva também poderia ser um livro com uma rosa dentro.
Para mim, isso tem muito mais relação com literatura do que com qualquer outra questão. Sou um leitor voraz. Todos os livros que eu comprei, se não li, conheço pelo menos o autor ou já ouvi falar da história. São livros que eu recomendaria.
No meio disso tudo, começou a discussão sobre uma reescrita da Constituição. Uma semana antes, eu pensei: por que o buquê da noiva não pode ser a obra da literatura brasileira que a gente mais precisa defender neste momento? E assim aconteceu. Eu não sabia, obviamente, a proporção que isso ia tomar.

Foto: Isadora Totaro
E a sua entrada com o livro nos agradecimentos, foi planejada?
Não foi ensaiada. Quando a Mikaela Gomes entrou com o livro, eu estava na boca de cena e ouvi a sala começar a gritar. Ali entendi que alguma coisa ia acontecer. Virei para as pessoas que trabalham comigo e falei: vou pegar o livro da mão dela e fazer a minha entrada com ele.
Entrei para o agradecimento, saí da minha faixa, que era no meio. Acho que nos vídeos dá para ver que eu saio do eixo. Estendo a mão para ela, ela olha para a minha cara, entende e me dá o livro. Aí eu vou até o pit dos fotógrafos agradecendo os aplausos, e vira aquela loucura, uma gritaria. E foi isso.











