26 de julho de 2026

O que fica dos nossos avós: três histórias de Alagoas sobre memória, afeto e inspiração

Entre receitas, objetos, bordados e histórias que atravessam gerações, três alagoanos transformaram as lembranças de seus avós em parte daquilo que são e fazem hoje

Crédito: Instagram Antônio Foz.

Algumas pessoas continuam presentes mesmo depois que o tempo passa.

Às vezes, estão em uma receita que atravessou gerações, em uma louça guardada com cuidado dentro de um armário, em uma técnica aprendida com as mãos ou em uma história de família que alguém decidiu não deixar desaparecer.

Os avós têm esse lugar curioso na nossa memória. São, muitas vezes, os primeiros a nos apresentar sabores, objetos, costumes e histórias que passam a fazer parte de quem somos.

Em Alagoas, essa relação aparece de diferentes formas. Para o chef Serginho Jucá, a memória da avó Yeda Rocha virou uma marca de bolo de rolo. Para a nutricionista Leila Accioly, permanece em uma peça de louça e em um livro de receitas que guardam a sensação de uma casa cheia. Para o estilista Antônio Castro, a inspiração nasceu de uma história familiar quase perdida no tempo, e ganhou forma por meio da moda e do artesanato alagoano.

São histórias diferentes, mas que partem do mesmo lugar: aquilo que recebemos de quem veio antes de nós e que, de alguma maneira, escolhemos levar adiante.

Uma receita que virou legado

Na história de Serginho Jucá, a cozinha sempre teve um pouco de Yeda Rocha.

Conhecida como uma das grandes referências da culinária alagoana, sua avó deixou no neto receitas e um jeito de entender a comida como memória, cuidado e encontro.

Foi assim que nasceu a Vovó Yeda, marca de bolo de rolo criada por Serginho em homenagem à avó. O nome é uma maneira de manter viva uma história que começou muito antes da marca existir. Pois em cada camada fina do bolo de rolo, existe também uma camada de memória.

Serginho aprendeu com a avó que cozinhar poderia ser uma forma de criar lembranças. E, ao transformar uma receita familiar em produto, levou essa relação para além da própria família.

“Desde minha infância, as mãos habilidosas da Dona Yeda moldaram não apenas bolos, mas memórias que guardarei para sempre. Cada fatia de bolo de rolo que preparei é uma homenagem a ela, a seus ensinamentos e amor incondicional.”

A receita continua sendo preparada. O sabor chega a outras mesas e uma história que poderia existir apenas na lembrança de um neto, passa a ser compartilhada por outras pessoas.

O amor também mora nas coisas que ficam

Para Leila Accioly, a memória da avó aparece de um jeito mais silencioso.

Está em uma louça que recebeu de presente poucos dias antes da morte dela. Está também em um livro que, para Leila, é quase um baú de memórias e sabores da família.

São objetos que poderiam parecer simples para qualquer outra pessoa, mas não sã, porque algumas coisas carregam mais do que sua função original.

Por exemplo, uma louça pode guardar o som de uma família reunida, um livro de receitas pode trazer de volta cheiros, vozes e tardes inteiras. E, de repente, cozinhar deixa de ser apenas preparar uma refeição e vira uma forma de cuidar.

“Tenho até hoje essa louça que ela me presenteou dias antes de falecer, que guardo com carinho e ciúme com o livro que é praticamente um baú de memórias e sabores da família. Cada vez que olho para essa peça e folheio o livro, sinto aquele aconchego, aquele barulho gostoso da família reunida, e a certeza de que cozinhar e cuidar também é um jeito de amar.”

Esses objetos acabam nos devolvendo, por alguns instantes, a sensação de estar em um lugar que já não existe exatamente como antes. E, nesse caso, a cozinha parece ser o ponto de encontro entre passado e presente.

Uma avó que virou história, moda e identidade

A história de Antônio Castro é diferente.

Nascido em Maceió e fundador da marca de moda Foz, o estilista encontrou inspiração em uma avó que não conheceu da maneira convencional. Laura, conhecida como “Doninha”, teria entrado para o cangaço depois de ser abandonada pelo namorado e, segundo a história familiar, acabou sendo apagada da própria narrativa da família.

O que restou foi uma fotografia publicada em um jornal da época e uma história cheia de lacunas.

Foi justamente nesse espaço entre o que se sabe e o que se imagina que Antônio criou “O conto de Laura”, coleção apresentada no São Paulo Fashion Week e construída a partir da vida que ele imaginou para a avó. A história de Laura também se conecta ao trabalho do estilista com artesãos e bordadeiras de Alagoas, incorporando técnicas tradicionais como o Redendê e o Boa Noite.

E nesse caso, a memória virou tecido, renda e bordado.

A história de Laura, que poderia ter permanecido restrita às poucas lembranças e registros que sobreviveram, encontrou uma nova maneira de existir. Não como uma reconstrução exata do passado, mas como uma narrativa criada a partir da imaginação, da pesquisa e da vontade de conhecer melhor alguém que veio antes.

O que herdamos e o que escolhemos continuar

O mais interessante nessas três histórias é perceber que nenhuma delas fala apenas sobre saudade, mas sobre continuidade. Serginho continua uma receita, Leila preserva objetos e rituais que carregam a memória da família e Antônio transforma uma história quase esquecida em criação.

Cada um, à sua maneira, encontrou uma forma de conversar com o passado sem ficar preso a ele.

E, quando essas lembranças encontram espaço para continuar, elas deixam de pertencer somente a uma família, passando a fazer parte de uma história maior.

Uma história de Alagoas, de cultura, de afeto e de tudo aquilo que escolhemos não deixar desaparecer.

 

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