21 de agosto de 2026

Alagoas escreve longe: Guilherme de Miranda Ramos vence o Prêmio Sesc de Literatura e Jô Saulo chega à final

Entre quase 3 mil obras inscritas, dois escritores alagoanos colocaram Maceió entre os destaques de uma das principais premiações literárias do país, um deles com o livro vencedor de Poesia, outro com uma distopia sobre o futuro da humanidade

A literatura alagoana vem renovando a tradição de deixar sua marca na história.

Enquanto Guilherme de Miranda Ramos acaba de ser anunciado vencedor da categoria Poesia do Prêmio Sesc de Literatura 2026, com Geografia do Desconforto, Jô Saulo aparece entre os finalistas de Conto com uma obra que imagina um Brasil tomado pela tecnologia, onde inteligência artificial, androides e a cultura digital colocam em xeque aquilo que ainda nos torna humanos.

São dois livros muito diferentes e duas trajetórias que chegam ao mesmo lugar: o reconhecimento nacional.

Nesta edição, o Prêmio Sesc de Literatura recebeu 2.969 inscrições, o maior número de sua história. Foram 1.203 livros de poesia, 960 romances e 806 livros de contos. No meio de uma produção tão extensa, dois nomes de Maceió conseguiram avançar até as etapas finais, Guilherme levando o prêmio para casa e Jô Saulo chegando à final de Conto.

Para quem acompanha a produção cultural alagoana, pode perceber que existe algo ainda mais interessante nessa história: os dois não chegam ao prêmio por acaso. Há anos escrevem, experimentam linguagens, pesquisam, publicam, produzem cultura e constroem seus próprios caminhos em um estado que, como lembra Jô, nem sempre oferece as condições mais fáceis para quem escolhe viver de arte.

Um desconforto que virou prêmio

Guilherme não começou Geografia do Desconforto pensando necessariamente no prêmio. O livro levou meses para ganhar forma e nasceu de uma vontade de observar o desconforto em diferentes escalas.

O resultado foi dividido em três partes: Sangue, Asfalto e Espelho.

No primeiro território, aparecem as heranças biológicas, os silêncios familiares e aquilo que carregamos no corpo antes mesmo de escolher. Depois, esses corpos chegam ao asfalto e encontram a cidade, o trabalho e suas invisibilidades. Por fim, chegam ao espelho, onde o olhar se volta para dentro.

“Queria registrar o ‘desconforto’ em diferentes escalas”, explica Guilherme. “Primeiro, O SANGUE, que trata das heranças biológicas e dos silêncios familiares que herdamos em nossos corpos. Depois, esses corpos seguem para uma escala pública, O ASFALTO, onde enfrentam as invisibilidades urbanas e as engrenagens do trabalho. Por fim, só resta aos corpos O ESPELHO, onde já não buscam mais os outros e tentam apenas reconhecer as próprias faces em meio ao que acham que sobrou deles.”

O curioso é que, para escrever esse livro, o poeta precisou justamente se afastar de algumas das certezas que já tinha sobre sua própria escrita.

Guilherme gosta de sonetos, de métrica, de rima, de estruturas que conhece bem. Desta vez, decidiu fazer o contrário.

“Esse ato, desconfortável, com o perdão do trocadilho, foi o divisor de águas em minha escrita poética.”

E a mudança parece ter funcionado, pois o livro venceu a categoria Poesia e colocou Guilherme entre os novos autores que passam a integrar a história de uma premiação criada em 2003 e que já revelou nomes importantes da literatura brasileira.

Mas Guilherme acredita e defende que esta não é uma conquista exclusivamente individual.

“Depois de esperar 23 anos, todos os alagoanos podem, finalmente, dizer: ‘sou Prêmio Sesc de Literatura’.”

Uma literatura que olha para o futuro, sem esquecer o que pode desaparecer

Se Guilherme olha para dentro, Jô Saulo olha para frente.

Seu livro finalista A Úscara do Fim é uma distopia em que o Brasil vai sendo consumido pela tecnologia. Inteligência artificial, androides e o universo digital não aparecem apenas como elementos de ficção científica, mas como ferramentas para discutir uma pergunta bastante contemporânea: o que acontece quando o virtual passa a valer mais do que a própria vida?

Os contos se passam em diferentes regiões do país. A escolha não é aleatória.

Jô queria que a transformação tecnológica atravessasse também as diferentes culturas brasileiras e que, diante de um futuro cada vez mais digital, nenhuma delas desaparecesse pelo caminho.

“É uma crítica sobre a valorização do digital e virtual, que anda se tornando mais importante que a vida de fato”, explica. “Os contos se passam em todo o país, trago essas perdas e transformações em estados de todas as regiões, pois a cultura é a transformação só possível com um Brasil que não isole nenhum povo ou cultura.”

Entre os textos, um conto sobre ancestralidade e mitos brasileiros foi particularmente trabalhoso. Jô o dividiu em duas partes e chegou a mudar o tom e o ritmo da narrativa para equilibrar a invasão tecnológica com aquilo que, para ele, deveria permanecer no centro: a cultura.

É um trabalho de muitas camadas, e que tem algo de muito alagoano nessa preocupação em não deixar que o futuro apague aquilo que veio antes.

Quando os grandes nomes continuam falando

Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Lêdo Ivo são nomes incontornáveis para quem escreve em Alagoas. Para Jô, porém, eles não estão apenas nas estantes ou nas aulas de literatura, eles continuam presentes.

“Nesse livro mesmo tem muito de Graciliano e Lêdo Ivo. Em um de poesia que estou trabalhando tem muito do telúrico do Jorge de Lima”, conta.

A influência, explica, não significa tentar reproduzir os autores que vieram antes. É mais uma espécie de continuidade.

“Quando começamos a estudar e entender os que fizeram parte do nosso passado, as vozes deles enraízam e não saem mais. Elas se tornam parte da gente e acabamos, de uma forma ou de outra, dando continuidade a essas vozes sem imitá-las.”

É justamente esse diálogo entre passado e futuro que torna a presença dos dois escritores no Prêmio Sesc ainda mais simbólica.

De um lado, uma poesia que investiga heranças, corpos, cidade e identidade. Do outro, uma ficção que imagina o que pode acontecer quando a tecnologia começa a ocupar o lugar daquilo que nos conecta.

Duas formas diferentes de perguntar, no fundo, quem somos e o que estamos nos tornando.

Escrever também é trabalho

Existe ainda uma parte menos romântica da literatura que aparece nas duas histórias: escrever exige insistência.

Jô conta que hoje encara a escrita como trabalho. Lê e escreve todos os dias, seja poesia, conto ou fragmento de algo que talvez só encontre seu formato muito depois.

“Escrever é pesquisar, estudar e observar o mundo para depois reproduzir de uma forma que o mundo não se enxerga.”

Guilherme conhece bem esse processo. Geografia do Desconforto só terminou porque o prazo de inscrição do prêmio chegou ao fim. Até então, ele continuava escrevendo, reescrevendo, editando e formatando.

“Eu precisava parar de escrever, rescrever, editar e formatar e, simplesmente, entregar o livro para o concurso.”

A brincadeira com o prazo esconde uma verdade bastante familiar para quem cria, a de que talvez uma obra nunca esteja completamente pronta, mas em algum momento, é preciso decidir que ela está pronta o suficiente para ganhar o mundo.

E o que falta para Alagoas?

A conquista também traz uma pergunta inevitável: se existem tantos escritores produzindo por aqui, por que ainda é tão difícil vê-los chegar a espaços nacionais?

Para Jô, a resposta passa por duas palavras: espaço e apoio.

Ele reconhece a importância dos editais e das oficinas existentes em Alagoas, mas acredita que ainda falta uma ponte capaz de levar essa produção para além das fronteiras do estado.

“Você ganha um edital ou um prêmio, mas seu reconhecimento fica preso aqui, não vai para o Brasil.”

A trajetória dos dois no Prêmio Sesc mostra justamente o que acontece quando essa fronteira é atravessada.

Guilherme agora terá seu livro publicado pela Editora Senac Rio, receberá a premiação de R$ 30 mil e passará a circular pelo país em uma programação ligada ao Sesc. 

Jô também deixa a edição de 2026 como reconhecimento de ter sido um dos finalistas entre centenas de inscritos na categoria Conto.

Para além do resultado, há algo importante no fato de dois escritores de Maceió aparecerem juntos entre os nomes de destaque de uma premiação nacional.

Alagoas já tem seus cânones. Tem Graciliano, Jorge de Lima, Lêdo Ivo e tantos outros nomes que ajudaram a escrever a história da literatura brasileira. Agora, uma nova geração continua escrevendo.

 

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