Depois da passarela: o que desfilar em Milão fez Alina Amaral enxergar sobre Alagoas
Em sua segunda participação na Semana de Moda de Milão, estilista alagoana conta o que levou do Sertão para a Europa e o que trouxe de volta para o trabalho no estado

Uma produtora europeia chorou ao ver uma das peças de Alina Amaral. O bordado lembrou a ela a avó, mexicana, e o jeito como a mulher fazia o trabalho manual. Alina conta o episódio como um dos momentos da rotina de produção na Europa.
A estilista alagoana apresentou em Milão, em 22 de setembro, a coleção “Avesso do Céu”, inspirada no Sertão de Alagoas. O trabalho reuniu 22 bordadeiras e técnicas como o Filé e a Renda Singeleza, reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas. A marca integrou uma seleção de dez marcas brasileiras reunidas pela Abit e pela ApexBrasil. Só uma era de Alagoas, a dela.
É terceira vez que a marca esteve em Milão e é a primeira alagoana a desfilar na temporada internacional.

O que Alina leva de Alagoas
Nascida no Alto Sertão, criada às margens do São Francisco, ela diz que o que leva na coleção “não poderia vir de outro lugar” que não Alagoas, estado que, nas palavras dela, “detém a maior quantidade de manualidades do Brasil”.
Além do Filé e da Singeleza, a marca trabalha com bordado livre, bordado de cristais e miçangas e patchwork. As modelagens são soltas e contemporâneas, o que, segundo Alina, coloca o artesanal em contraponto com “o novo e o futuro”.
“O artesanal está sobre o olhar do mundo. É o que nós temos de mais novo na moda mundial: o apreço e a valorização ao que é essencial para cada DNA, para cada lugar”.

Para ela, é isso que o público estrangeiro enxerga. Na avaliação da estilista, o interesse pelo feito à mão convive com o avanço da inteligência artificial e dos tecidos tecnológicos.
“Esses dois aspectos, que são paradoxos, são realmente a grande novidade da moda. Então, eu acho que o que as pessoas observam no meu trabalho é exatamente esse apreço e essa identidade forte e fortalecida do meu território.”

O que Milão trouxe na bagagem
O que Milão mostrou a Alina foi o mesmo movimento em outras marcas. Entre os dez convidados, ela destaca o fortalecimento do DNA e do território de cada um e a surpresa com a diversidade do país.
Da Europa, ela vê um mercado “extremamente profissional”, voltado à eficiência, construído ao longo de décadas. O Brasil, na leitura dela, ainda é jovem nesse universo.

A comparação a leva de volta a Alagoas. Alina diz que os criadores do estado, na moda, nas artes, na arquitetura e no artesanato, defendem a própria origem, mas trabalham com pouco apoio.
“Nós precisamos preservar o que é nosso. Nós precisamos aparelhar juridicamente as nossas manualidades, porque elas estão hoje sobre o olhar do mundo. E digo por mim e por muitos criadores e artistas e artesãos que ainda precisam ter um apoio maior na área, de modo especialmente, temos muito pouco. Então, apoio é fundamental”.

O impacto que atravessa a passarela
Alina se define como empreendedora social e dá os três pilares da marca: a manutenção das ancestralidades por meio das manualidades do território, o uso de materiais certificados e a responsabilidade social. Ela tem um selo internacional de sustentabilidade e integra uma associação brasileira de moda sustentável.
Todo o trabalho é feito com mulheres de uma área vulnerável de Maceió, na ONG Cren, por meio do coletivo @aarteando. Há dez anos ela capacita bordadeiras ali e diz já ter formado mais de 500.
“Cada vez que eu viajo com a marca, eu trago a expectativa e a mudança, a ressignificação da vida de cada uma dessas mulheres.”
