19 de outubro de 2026

Expresso Maravilha: FOZ transforma a casa do interior em tendência na SPFW

Desfile abriu o último dia da semana de moda, no domingo (18), com renda de Sergipe e bordados do Rio Grande do Norte, além do artesanato alagoano

Foto: @felipervsso

Cortina, namoradeira, almofada, capa de sofá, mosquiteiro, colcha e até galinheiro. Os objetos que fazem uma casa no interior do Brasil viraram roupa no desfile da FOZ, que abriu o último dia da SPFW N61, neste domingo (18). Com Expresso Maravilha, o estilista alagoano Antonio Castro levou para a passarela uma viagem de volta para casa.

O ponto de partida foi literal. No fim do ano passado, Antônio saiu de carro de São Paulo, onde mora há 12 anos, até o Ceará.

“Essa paisagem de acostamento, essas imagens que eu fui captando durante esse percurso foram o que me inspiraram a encontrar a minha casa na roupa. É uma coleção que fala muito dessa busca pela casa enquanto a gente está viajando e tentando encontrar o nosso lugar no mundo”, contou o estilista nos bastidores.

A estrada na passarela

Expresso Maravilha foi pensada como um filme de estrada. Na entrada da passarela, imagens de rodovias em movimento eram projetadas entre tecidos que faziam as vezes de cortinas. Segundo a organização da SPFW, a passarela virou a rodovia de volta para a terra natal do estilista, com uma reflexão sobre os obstáculos desse retorno.

Antes do desfile, Antônio já tinha adiantado ao Refresh que queria criar essa sensação.

“As pessoas que estão ali estão viajando comigo”, contou.

A casa que a gente veste

Na coleção, a casa aparece em bordados, aplicações e recortes. Uma namoradeira cercada por cortina estampa um dos looks, almofadas foram aplicadas em um vestido, os franzidos das capas de sofá viraram tops justos, o matelassê das colchas ganhou forma de roupa e o ponto cruz dos panos de prato decorou blusas. As saias em camadas foram feitas de chita, tecido símbolo do São João nordestino. O patchwork, com predominância de tons de vermelho, atravessou a coleção.

No material de divulgação, a marca explica a ideia: se o corpo está sempre em trânsito, a roupa passa a ser a casa que se leva para onde quer que se vá.

A coleção também trouxe uma FOZ mais sensual, com sungas, camisas abertas, cardigãs de patchwork, micro-shorts e bordados de casais em cenas íntimas.

Do sertão de Alagoas para a passarela

Uma das referências às almofadas dos sofás veio de Entremontes, no sertão alagoano, onde as bordadeiras fazem o redendê. Antônio explica que a técnica descende do hardanger, bordado trazido por europeus, mas ganhou outro nome e outros pontos por aqui. “Os pontos vieram, mas elas adaptaram, criaram novos pontos, deram novos nomes. Isso é ser brasileiro, né?”, diz.

O redendê se somou aos outros grupos alagoanos que o estilista havia antecipado ao Refresh, de Capela, Marechal Deodoro, Coruripe e Maceió.

Alta-costura feita à mão

Expresso Maravilha marcou estreias técnicas. Pela primeira vez, Antônio usou crinol, barbatanas e corsetaria interna para estruturar as peças, que costumam ser mais fluidas, criando volumes arredondados em saias e vestidos de jacquard.

Os jacquards, de algodão e viscose, reinterpretam as estampas florais da chita e foram desenvolvidos com a Casa das Bordadeiras, grupo de Timbaúba dos Batistas, no Seridó potiguar, apoiado há quatro anos pelo Instituto Riachuelo. As artesãs também assinam bordados de pedrarias e flores 3D. A renda irlandesa veio de Divina Pastora, em Sergipe.

Como nos desfiles de alta-costura, a apresentação terminou com uma noiva. A modelo Mikaela Gomes fechou a passarela com um vestido longo, todo branco, e, no lugar do buquê, um exemplar da Constituição de 1988 cravejado de cristais, com uma rosa vermelha na capa. Na volta final, Antonio Castro também entrou com um exemplar.

Na entrevista ao Refresh, o estilista contou que o vestido nasce de uma camisa, a primeira roupa produzida pela FOZ, como forma de contar a trajetória da marca até a passarela.

Os convidados da primeira fila ainda receberam livros, mais um detalhe de um desfile pensado como viagem.

Foi a quarta apresentação da FOZ na SPFW e a primeira em que Antonio Castro trocou as memórias de família pelo presente: a estrada entre São Paulo e o Nordeste que ele ainda tenta percorrer de volta.

 

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