16 de outubro de 2026

“Temos filme, portanto temos memória”: o cinema de Ulisses Arthur, premiado no Festival do Rio

'Não Estamos Sonhando', rodado em Maceió, foi eleito melhor longa da Mostra Novos Rumos; Pedro Leão levou o prêmio de melhor ator

Divulgação

O longa Não Estamos Sonhando, do diretor alagoano Ulisses Arthur, venceu o Troféu Redentor de melhor longa-metragem da Mostra Novos Rumos no 28º Festival do Rio. A premiação foi no domingo (11), no Cine Odeon. O protagonista, Pedro Leão, ganhou o prêmio de melhor ator da mostra. Esse é o primeiro longa feito em Alagoas a disputar e a vencer na competição.

Rodado em Maceió, o filme conta a história de Ciro, estudante de medicina que dá aulas de pole dance para um grupo de amigos negros. Quando precisa sair de repente da casa onde mora como hóspede, ele vai para o apartamento de Antônio, um vizinho que trabalha como DJ.

“É um prêmio extraordinário. É uma visibilidade maravilhosa. O Festival do Rio é um lugar de muita reverberação”, disse Ulisses ao Refresh. “Esse reconhecimento ajuda muito tanto a minha carreira quanto a da equipe e a do elenco. Amplia o nosso alcance e é um estímulo muito bom para continuar fazendo.”

Roteiro começou na faculdade

Ulisses começou a escrever o roteiro em 2016, como trabalho de conclusão do curso de Cinema na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira. A ideia saiu do que ele viu entre os colegas: estudantes de origem popular que saíam de casa para a universidade e mudavam ao longo do curso.

“Eu vi magia acontecer na universidade. As pessoas chegavam mais tímidas, ainda sem entender o seu potencial, e saíam muito poderosas intelectualmente. Mudavam a estética delas”, afirma.

Foram quase dez anos entre o primeiro tratamento e a estreia. O projeto passou por laboratórios como a Incubadora Paradiso e foi filmado em Maceió em 2023. É o primeiro longa de ficção feito em Alagoas com dinheiro de edital público de fomento.

Para o diretor, a demora faz parte do ofício. “O roteiro não fica pronto em uma semana. A gente escreve um tratamento, deixa, volta, passa meses, recebe uma consultoria e muda tudo. É uma arte de muita paciência”, diz.

O roteiro mudou durante as filmagens e de novo na montagem.

“Derrubei cenas na filmagem, derrubei cenas na montagem. Às vezes você altera a posição de duas cenas e já vira outra coisa”, diz o diretor.

Ele define o filme como pop, mas com provocação. “Quando você assiste, talvez se sinta um pouco provocado também. Ele dá algumas espetadas no espectador.”

A estreia mundial foi nos Estados Unidos, no BlackStar Film Festival, na Filadélfia. Depois do Rio, o longa será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que está na 50ª edição. A estreia nos cinemas está prevista para abril de 2027. O filme também deve chegar a uma plataforma de streaming, ainda não divulgada.

Foto: Luciano Pedro

De Viçosa ao cinema

Ulisses nasceu e cresceu em Viçosa, no interior de Alagoas. Mudou-se para Maceió para estudar no Cefet (atualmente IFAL), onde se formou técnico em Química. “Formado, mas não praticante”, diz. Foi na escola que começou a fazer teatro.

“Eu escrevia os roteiros das peças, dirigia a turma, me metia no cenário, ia para o Centro comprar coisas, mobilizava, organizava. Já tinha um diretor ali morando dentro de mim”, lembra.

A escolha pelo cinema veio da soma do teatro com a cinefilia. “A imagem fica ali gravada para sempre. E o cinema juntava tudo o que eu gostava: atuação, narrativa, visualidade, som.”

Morou cinco anos em Cachoeira e foi da quinta turma do curso da UFRB. Segundo ele, tudo o que escrevia na Bahia se passava em Alagoas. Ainda na graduação, gravou um curta no estado com verba de edital local. Depois de formado, voltou para Maceió, onde mora até hoje.

Antes do longa, dirigiu seis curtas e tem outros três para lançar. Um deles, Ilhas de Calor, está no Itaú Cultural Play.

“Fiz curta com dinheiro, curta sem dinheiro, curta em que eu operava a câmera. Fiz curta de protesto, de comédia, de ficção, documental. Os curtas foram minha escola”, afirma.

Filmar em Alagoas

Ulisses diz que poderia ter se mudado para o Rio ou para São Paulo, mas preferiu trabalhar a partir de Alagoas.

“Alagoas é o meu objeto de estudo e de expressão. Daqui eu consigo levar para as telas uma novidade ainda pouco vista no cinema brasileiro”, diz. “Temos filme, portanto temos memória.”

O diretor já tem outro longa em fase de captação de recursos e ideias para mais dois. Ele critica a irregularidade das políticas públicas para o setor no estado.

“Sai um edital este ano, outro daqui a três anos. Sai um dinheiro que era para cair este ano e só cai no fim do ano que vem. Isso acaba bagunçando a gente”, afirma. “Todo estado desenvolvido tem a sua expressão artística muito bem organizada e valorizada.”

Para Ulisses, filmar Alagoas também é uma forma de reparação. “É um estado atravessado por tantos episódios históricos em que a gente sabe quem venceu e quem perdeu. O cinema, para mim, é uma forma de fazer justiça, nem que seja através da fantasia”, diz.

“Eu gosto da ideia de que a gente vença no final.”

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